A cega à beira-mar
Entreguei-me à fantasia te ter ao meu lado, que fantasia mais dolorida. De olhos fechados caminhei ao teu lado, mesmo sendo completamente invisível ao teu olhar, caminhei sem ao menos reclamar do caminho, nem dos espinhos que iam se cravando em meus pés descalços. Despi-me, para ser tua de corpo e alma, joguei-me em teu colo a procura de aconchego, mas tudo que recebi foi ver-te caído chorando amores perdidos, aconchegos destinados a aquelas. Aquelas que nunca lhe amaram, nem ao menos te olharam como eu olhei.
Olhei no passado, pois meu presente é viver sem olhos. Arranquei os olhos de minha face para que assim eu não te enxergue mais, arranquei-me a visão para que meu coração deixe de ver-te na tentativa de esquecê-lo. Falhei. A lembrança de teu sorriso me atormenta a cada segundo, o teu olhar arranca os meus sentidos. Enlouqueci. Você me enlouqueceu.
Perdi os olhos, perdi a alma, o corpo, o coração. Perdi-me em ilusão.
Macabra ilusão de amar e ser amada. Macabra ilusão de ser desejada por meu desejo mais intenso, pela chama que incendeia meu peito. Sórdida ilusão de caminhar de mãos dadas, ouvir sua voz sussurrada ao pé do ouvido, deitar-me em teu colo e ter meus cabelos acariciados por suas mãos e ao me despedir ter os lábios beijados por aqueles teus.
Ilusão.
Palavra que define toda essa história de nós dois. História inventada por mim, escrita com minhas mãos, por meus pensamentos, por meu coração… Coração tolo. Mas não importa mais, agora ele viverá eternamente em um túmulo pequeno de beira de estrada decorado com uma mensagem escrita em letras maiúsculas: AQUI JAZ O CORAÇÃO QUE TANTO ME FEZ SOFRER. E em outro bem distante beira-mar estará o meu, rodeado por girassóis sem nada escrito e quando perguntarem de quem é aquele túmulo, responderam: De uma cega que morreu de amor.
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