Viúva
Não sou mais aquela pequena flor que lhe esperava toda fogosa na varanda com vestidos de cores que simbolizavam nossa calmaria. Não sou mais aquela passarinha que cantarolava acalantos para lhe ver dormir e acariciar sua juba cheirosa. Nem ao menos aquela que chorava tempestades em tuas partidas balançando lenços brancos e gritando “Au Revoir” e ao chegar a casa debruçava no sofá abraçando tua camisa e afogando-me em teu cheiro que deixaste por lá. Não sou mais aquela… E nem aquela outra que você acabou de pensar. Luto com o pranto que tanto desliza em minha rosada face. Aperto este coração vermelho que guardo em meu peito, de tal forma que o faça sufocar para que assim ele aprenda te ignorar e afogar-te em um dos barcos que lhe levou de casa.
Mas, ah Marinheiro, é impossível matar um grande amor.
Impossível acreditar que não voltaras para me encher de beijos, dizer o quanto pensou em mim neste tempo que se ausentou. Acariciar meus cachos castanhos que brilham em tua presença, apalpar minhas bochechas coradas e dizer “Não te disse que eu voltava, querida! Pois bem, cá estou de volta para teu colo.”
Dói tanto.
Agora sou aquela que usa vestidos negros para transparecer a escuridão que causaste em mim. Aquela que passa a tarde debruçada em seu túmulo morrendo aos poucos e pintando-o com lágrimas de sangue. Aquela que atravessa a noite bordando para ver se ela passa mais rápida e que a tarde logo chegue para ir ao teu encontro. Esta sou eu… Não mais tua menina, nem mesmo tua mulher. Sou apenas aquela que morreu depois da morte de teu amado e esqueceram-se de colocá-la junto a ele no caixão.
E assim continuarei minha morte, amando-te e odiando aquele mar que levaste meu Marinheiro de mim.
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